Tiradentes-MG, sábado, 26 de janeiro de 2008. A cidade mobilizada em função da sétima arte, - proporcionando a convivência entre os nativos, turistas, artistas e técnicos, que se cruzam nas ruas, pousadas, restaurantes e nos cinemas. Há projeções especiais para crianças, debates e oficinas para aficionados, festas etc. Programa em família daquele dia: ir ao cinema, claro! Em cartaz, para fechar com chave de ouro o 11º Festival de Cinema Brasileiro Contemporâneo de Tiradentes – MG, “Estômago”.

Cartaz
Tive o privilégio de assistir à película na tenda principal, após, confesso, furar a gigantesca fila que se formava. É que fizemos amizade com um rapaz que era conhecido de outro rapaz, este pertencente ao comitê organizador do Festival. Passamos então, meus pais, o “recém melhor amigo de infância”, e eu por debaixo do pano negro, ovacionados – para não dizer vaiados – em protesto pela multidão que aguardava sua vez.
Após me sentar, descobri que os dois colegas de platéia, que se acomodaram nas cadeiras ao lado da minha, eram ninguém mais, ninguém menos, que o ator Babu Santana – ganhador do Prêmio Especial do Júri do Festival do Rio 2007 por sua atuação em “Estômago” – e a produtora Cláudia da Natividade. Esta veio representando o diretor curitibano Marcos Jorge e discursou lá na frente com o ator principal, o baiano João Miguel (de “Cinema, Aspirinas e Urubus”), antes do filme começar.
Álbum de família à parte, vamos ao filme.
“Na vida há os que devoram e os que são devorados. Raimundo Nonato, nosso protagonista, descobre um caminho à parte: ele cozinha. E é nas cozinhas de um boteco, de um restaurante italiano e de uma prisão - o que ele fez para acabar ali? - que Nonato vive sua intrigante história. E também aprende as regras da sociedade dos que devoram ou são devorados. Regras que ele usa a seu favor, porque mesmo os cozinheiros têm direito a comer sua parte - e eles sabem, mais do que ninguém, qual é a parte melhor.” (Sinopse 1 oficial)
A melodia entra como um assovio. Desperta curiosidade. Sons um pouco dissonantes, contínuos, pizzicattos ao fundo, mistério, terror, alegria? Assim começa a ser contada a história do cozinheiro Raimundo Nonato, nordestino que larga sua terra para ir ao sul-maravilha tentar fazer a própria vida. O filme de Marcos Jorge se define como “Uma fábula nada infantil sobre Poder. Sexo e Gastronomia.”.
Sabores que se formam em nossas bocas, acompanhados de sentimentos de espanto, ódio e cheiros que saltam da tela: azedo, podre, sujo. Aos poucos, a paixão e a complacência pela personagem principal e suas habilidades culinárias, seu jeito simples e simpático, nos trazem outros aromas diretamente do manto branco do cinema: salsinha, refogado de alho e azeite, cheiro de limpeza, de infância, de comida de casa de avó, de sobremesa recém-preparada e de coxinha de galinha.
Não contarei aqui sobre o que trata, mas durante as cenas finais – que finalmente explicam à ávida e curiosa platéia o porquê de o filme se passar em dois tempos narrativos, passado e presente (ou seria futuro?) – o gosto que experimentei em minha boca, ainda que provocado pelo imaginário coletivo e pela comoção diante das imagens que tomou conta dos meus colegas expectadores, foi de revirar o... estômago!
E apesar de a história do filme ser mesmo fabulosa, fantástica, fictícia e altamente emocionante, dá-nos a sensação de que é daqueles contos que poderiam ter acontecido, retirados de uma nota de jornal. E é aí que mora a beleza e o realismo fantástico que cercam este filme. A metáfora da humanização, da sociedade brasileira, enquanto um moedor de carne de gente pobre, o sistema injusto, as relações de trabalho ainda tão atrasadas, o sistema carcerário que se prende dentro de si mesmo, dentro das relações humanas que ali se formam, do código nada civil e muito menos penal que rege tais relações, como se num universo paralelo estivessem, à parte de tudo aquilo que conhecemos e concebemos como certo, justo, bom.
“Estômago” é ainda uma história de amor. Amor entre personagens, homens, mulheres, amor pela comida, pela culinária e pela arte de se comer e cozinhar bem. Amor que se confunde com paixão, com prazer sexual, visceral, com ódio figadal quando tomado pelos ciúmes, pela possessividade na tentativa de se apoderar daquilo que não pode nunca ser tido como propriedade de algo ou alguém: o humano.
Ficha técnica do filme: www.estomagoofilme.com.br
Empresas Produtoras: ZENCRANE FILMES e INDIANA PRODUCTION COMPANY
Direção: Marcos Jorge
Produzido por: Cláudia da Natividade, Fabrizio Donvito e Marco Cohen
Roteiro: Lusa Silvestre, Marcos Jorge, Cláudia da Natividade e Fabrizio Donvito
Argumento: Lusa Silvestre e Marcos Jorge
Produção Executiva: Cláudia da Natividade
Diretor de Fotografia: Toca Seabra
Montagem: Luca Alverdi
Direção de Arte: Jussara Perussolo
Música: Giovanni Venosta
Desenho de Som: Jean-Christophe Casalini
Som Direto: Maricetta Lombardo
Figurino: Marisol Grossi
Casting: Grazie Lara, Renata Medeiros e Rose Costa Consultor de Comportamento no Cárcere: Luiz Mendes Jr.
Consultora de Comportamento na Cozinha: Geraldine Miraglia
Livremente inspirado no conto “Presos pelo Estômago”, de Lusa Silvestre.