Home arrow trapiches2 arrow GRÃOS arrow Ana Leticia Procópio Costa

Ana Leticia Procópio Costa PDF Imprimir E-mail
GRÃOS
Por Ana Leticia Procópio Costa   
13 de novembro de 2008
Índice de Artigos
Ana Leticia Procópio Costa
Página 2

VÍCIO

por Ana Letícia Procópio Costa
BH, 19 de maio de 2008.

 

Dizia que passava muito bem, obrigada. O início foi difícil, abstinência das bravas, com crises de dor de cabeça, náuseas, não podia sequer sentir o cheiro da coisa para despertar em si os instintos mais sacanas, o mais puro desejo, quase que incontrolável, de se deixar sucumbir. Mas se conteve, tinha que se conter. As situações pediam, a sociedade pedia.

Na terceira semana, as dores se abrandaram, já não tinha mais enjôo e conseguia passar o dia todo com apenas um paracetamol. Às vezes nem isso. Até se esquecia de tomá-lo, sinal de que talvez nem mais dor de cabeça sentisse mais. E foi assim, aos poucos, que conseguiu superar o seu gutural e antigo vício. Todos estranhavam sua resistência, e continuavam a oferecer a ela aquilo que ela não podia provar. Era a força do hábito, ela sempre aceitava antes... Por que não agora?

Até que um dia, muitos meses após a decisão de parar de vez, começou com um curso à noite. Lá no curso, conheceu pessoas... Duas mulheres de meia idade, um rapaz de 28 anos, outro bonitão, com seus 23, 24 anos. Todos interessantes, interessados nela. E este curso tornou-se um pretexto, uma desculpa, para que ela começasse a abrir concessões, e a enganar a si mesma e aos outros, dizendo aos quatro ventos que poderia provar um pouquinho só, que não se viciaria novamente.

Até hoje pode se lembrar da primeira vez em que o sentiu novamente, após meses negando. Sua boca mal se continha de satisfação, suas pupilas se dilatando, seu coração pela boca, não havia palavras para descrever o prazer que ele lhe proporcionava. Um arrepio quente percorreu-lhe a espinha, arrepiando até os pêlos mais finos e impróprios. Fechou os olhos e queria que aquele momento de gozo se eternizasse.

Três colegas seus de trabalho se tornaram seus confidentes, e também fornecedores. Eles fingiam não saber do problema dela, mas gostavam de tê-la ali todos os dias, submissa, implorando pela compaixão, atenção, e um pouquinho, um tiquinho só do produto, para ela, tão delicioso, irresistível, e... viciante. Faziam joguinhos, brincavam, despistavam-na. Até tortura faziam, negando fogo. No início, ela fingia não se importar. Dava uma de desentendida, desatenta até. “Tô nem aí”, como a música, sabem como? Mas na realidade, ao sair daquela sala sem o objeto de sua ação indecorosa, recolhia em seu desespero no banheiro mais próximo. Mal conseguia controlar sua própria respiração, ofegante e descompassada. Molhava o rosto com a água da torneira, e a vontade era de se afogar descarga abaixo, só para acabar com seu sofrimento.

A dualidade de agir como se não tivesse mais vício algum, e ao mesmo tempo, saber que estava, novamente, se entregando a ele era o que mais a oprimia. Chegava a sonhar com ele à noite, acordava excitada, como se o sonho tivesse sido real. E assim, se frustrava mais uma vez, não só por ter perdido o sono, mas por saber que aquele seria mais um dia em que não conseguiria seguir com a vida regrada e desprovida daquele mau hábito.

E então... Bom, e então ela desistiu de lutar contra si e contra todos. Resolveu se entregar novamente a ele. E naquele dia... Naquela linda tarde de maio, saiu do trabalho para o almoço e nunca mais voltou.

Passou o resto de seus dias com ele, perfumado, gostoso, cremoso, quente, encorpado, negro, grosso, como ela gostava. Cheirou, se esfregou, lambeu, chupou, bebeu, engoliu, e de prazer, gozou tanto que seu coração parou...

Causa mortis: overdose. Substância entorpecente: Café.

 

MINIBIO

Ana Letícia Procópio Costa. Vinte e muitos anos.
Nascida em Belo Horizonte, MG, é advogada, especialista em Direito Ambiental. Mentora do blog “Mineiras, Uai!”, (http://mineirasuai.blogspot.com) onde escreve semanalmente desde agosto de 2004. Integrante do Comitê Gestor do Projeto Macabéa desde a sua formação, faz parte do Conselho Editorial da Revista Trapiches e colabora com textos inéditos para o blogue Macabelagem. Já foi bailarina, pianista e cantora nos sonhos, palcos e chuveiros da vida, não necessariamente nesta ordem. Escritora de paredes, petições e cadernos velhos, fotógrafa do vento e das palavras, paisagens e momentos.



 
< Anterior