Do Rock and Roll a João Gilberto - Entrevista com Bruno Brum PDF Imprimir E-mail
Por Alê Quites, Milla Loureiro e Lais Mouriê   
 
Bruno Brum
Bruno Brum
Apesar de ter se aventurado por garagens e pequenos palcos, tocando rock and roll na adolescência, Bruno Brum é poeta. E dos bons. Tem talento para transitar pela poesia como poucos. Manuseia palavras como um culinarista a testar sabores, aromas, texturas.

Em seus dois livros publicados, Mínima Idéia (2004)* e Cada (2007)*, Bruno Brum não se permite o limite: vai do concretismo ao lirismo, do humor satírico ao questionamento existencial,  da palavra à imagem. Impossível definir Bruno Brum. É artista. Tão simples e tão complexo quanto a palavra artista pode ser.

Incontentável e incansável, Bruno Brum não faz apenas poesia. É editor, juntamente com o escritor Makely Ka, de uma publicação de poesia, literatura e artes visuais, a Revista de Autofagia (http://autofago.blogspot.com). É designer gráfico, com ênfase na produção editorial. Participa com empenho de movimentos literários Brasil afora. Escreve também o seu blogue pessoal na Internet, o Sabor Graxa* (http://saborgraxa.blogspot.com), onde solta o verbo sobre infindáveis assuntos.

Nesta gostosa conversa com a Revista Trapiches, realizada numa das cafeterias mais tradicionais de Belo Horizonte, Bruno Brum fala sobre sua trajetória profissional e muitas outras coisas, seria um equívoco tentar restringi-lo.

1. Para início de conversa, diga quem é Bruno Brum?

     Nasci em Belo Horizonte, há 27 anos, e passei a maior parte da infância no interior de Minas. Em 1992, aos 11 anos, retorno com minha família para Belo Horizonte. Em nossa casa não existia uma biblioteca nem o hábito regular de leitura, mas, por outro lado, ouvíamos muita música e assistíamos muitos filmes. Minha aproximação com os livros se iniciou, de maneira lenta e gradativa, já no final da adolescência, quando descobri a poesia da Álvares de Azevedo nas aulas de literatura do colégio. Fiquei intrigado com aquela atmosfera de ironia e desespero, a um só tempo ingênua e angustiada, e disse: também quero ser poeta. Comecei a ler os poetas românticos brasileiros, principalmente aqueles da segunda fase do nosso romantismo, denominada Mal do Século. A partir daí passei a ler os autores citados por esses poetas: Byron, Shelley, Keats, Victor Hugo, Heine, Goethe, Dante, Milton. Era um processo de leitura intenso, constante, porém bastante desordenado. Eu sinceramente não fazia a menor idéia de onde aquilo iria parar, mas me sentia motivado a cada nova descoberta. Ia me aprofundando na obra daqueles poetas que de certa forma me instigavam e deixando de lado aqueles que tinham pouco ou nada a me dizer. Tudo isso aconteceu em 1999 e já nesse período comecei a escrever meus primeiros versos. Eram poemas adolescentes, ingênuos e mal escritos, mas com o tempo percebi que minha poesia, aos poucos, ia melhorando. Quando comparava dois poemas escritos com uma diferença de seis meses, por exemplo, desconfiava que o mais recente já parecia melhor resolvido, as palavras e as idéias pareciam se arranjar com mais desenvoltura e por isso continuei escrevendo. Em seguida, ingressei para a faculdade de História, que cursei por dois anos, e de Letras, onde fiquei por dois anos e meio. Não me formei em nenhum desses cursos e hoje atuo na área editorial, fazendo capas e projetos gráficos de livros e editando revistas voltadas para a publicação de literatura.


2. E o que te fez ser um escritor? Quais foram suas influências e o que te impulsionou para esse caminho, considerado, na atualidade, marginal?

    Antes de querer ser escritor eu tentei vários outros caminhos: publiquei quadrinhos, estudei pintura, tentei o teatro, tive bandas de rock. Mas meu desempenho nessas atividades nunca ultrapassou a mediocridade. Um tempo depois de começar a escrever, notei que minha escrita ia aos poucos melhorando, e isso nunca havia acontecido com nenhuma das linguagens artísticas que eu havia tentado antes.

    Para mim não há mistério: escrevo poesia porque gosto de poesia. Não se trata de um acerto de contas com algum acontecimento do passado, não é algo místico ou metafísico assim como também não se trata de uma tentativa de melhorar o mundo. Acredito que o bom poema, a sensação que se experimenta ao ler um bom poema, seja ela de surpresa, de estranhamento, de inquietação ou qualquer outra coisa, tudo isso já vale a escrita

Não procuro motivos ou finalidades “superiores” que justifiquem meu trabalho. Quanto às influências, as vejo como uma somatória de tudo o que vivi, tudo o que experimentei e, naturalmente, de tudo o que li. Acredito que minhas incursões frustradas na música e nas artes plásticas sejam tão decisivas no meu modo de escrever quanto os bons autores que li. Mas felizmente não sou organizado o bastante para apontar esse ou aquele autor como influência direta. Isso para mim é uma questão de circunstância, não de essência.     

 
3. Você publicou dois livros, “Mínima Idéia”, de 2004 e “Cada”, de 2007. Fale um pouco sobre cada um deles.
 
livros, “Mínima Idéia”, de 2004 e “Cada”, de 2007
“Mínima Idéia”, de 2004 e “Cada”, de 2007
Os primeiros livros costumam ser um tanto patéticos, e no meu caso isso não foi diferente. “Mínima Idéia” reúne poemas escritos entre 2001 e 2004. Antes disso, eu ainda estava um pouco indeciso quanto à possibilidade de publicação, e todos os poemas mais antigos foram descartados. A partir de 2001, comecei a selecionar e organizar meus poemas em pastas, tentando montar a seqüência de um livro. Nessa época minha escrita era ainda bastante oscilante: a cada novo autor descoberto, uma mudança brusca na forma de escrever. Trata-se de um livro ansioso, errado, ainda bastante sem jeito, tentando parar de pé, mas que, em minha opinião, é cheio de energia, de pegada e de inquietação. Talvez aí resida o seu valor.

    O fator aglutinante principal para a organização do livro foi a minha descoberta da poesia concreta, principalmente o trabalho de Augusto de Campos. Vale dizer que nesse momento eu não conhecia ninguém que estivesse produzindo uma poesia contemporânea no Brasil, e cultivava a mórbida idéia de que o último bom poeta brasileiro já deveria ter morrido há pelo menos 20 anos. Quando me deparo, em 2002, com “Viva Vaia”, volume que reúne a poesia produzida por Augusto de Campos desde os anos 1950, a minha sensação foi de perplexidade. O uso da tipografia, da cor, os poemas visuais, as colagens, uma sonoridade e um vocabulário estranhos e, fundamentalmente, a conjugação de liberdade e rigor presentes na obra do poeta paulista me permitiram enxergar que existiam muitas possibilidades além daquelas que eu considerava até então. Comecei a explorar o uso da tipografia em meus poemas mais recentes e a testar soluções visuais para aqueles que eu havia escrito anteriormente. Além disso, esse apontamento para a materialidade da palavra, do signo poético, explicitado pela poesia concreta me possibilitou uma postura um tanto mais crítica face à poesia em geral e à minha produção especificamente. “Mínima Idéia” é, portanto, um ponto de partida. Não apenas enquanto escritor, mas, talvez principalmente, enquanto leitor.

    Com “Cada” a história é outra. Três anos e meio o separam do “Mínima Idéia”. Nesse tempo conheci muita gente. Participei de festivais de literatura, fiz lançamentos em diversas cidades, apresentei performances, editei revistas, descobri uma rica literatura brasileira sendo feita na atualidade por pessoas com idades próximas à minha. Tudo isso foi muito estimulante, muitas parcerias surgiram disso tudo. No entanto, para mim nunca é tarefa fácil finalizar um livro.

    Comecei a selecionar e editar os poemas que comporiam “Cada” no final de 2006. Até então já havia escrito muita coisa, mas ainda não havia pensado em como organizaria o livro novo. Assim, fui selecionando aqueles poemas que mais me agradavam e que possuíam alguma proximidade entre si. Cada é aquilo que não se repete. Esse foi o ponto de partida do livro e que de certa forma traduzia o meu momento: “Cada” é um livro bastante diferente de “Mínima Idéia”. A preocupação formal continua lá, a exploração da materialidade da palavra, a ironia, o humor, tudo isso ainda está lá, mas são livros bastante diferentes entre si.

    Em primeiro lugar, tive que definir que rumo daria à visualidade em meu trabalho, já que havia produzido muito poucos poemas visuais entre um livro e outro. Então optei por publicar apenas poemas em verso, utilizando a mesma fonte tipográfica e o mesmo corpo de texto para todo o livro. Acredito que ao me impor todas essas limitações fui descobrindo outras possibilidades para minha poesia, que de certa forma se ampliou. Por exemplo, lancei mão de ilustrações para este livro, coisa que não havia feito no anterior. “Cada” é, em suma, um livro pautado pela tensão entre o que se atualiza e o que repete, entre continuidade e descontinuidade, entre o que se reaproveita e o que se descarta.

    Além disso, percebo uma outra diferença importante entre os dois livros, no que diz respeito ao uso da voz. Enquanto o “Mínima Idéia” é um livro mais estridente, barulhento, guitarra ligada no amplificador, o “Cada” acontece em um momento em que eu resolvo baixar um pouco o tom da voz, valorizando a tensão entre cada elemento presente no texto, sem alardes. Olhando para os dois livros, sinto que percorri um caminho que vai do Rock and Roll a João Gilberto.

4. A imagem é muito presente na sua obra. Em “Mínima Idéia” você opta por poemas visuais, concisos, além de ter assinado toda a parte gráfica do livro.
Podemos dizer que você é um filho do concretismo?

    Prefiro olhar para o passado sob a perspectiva do diálogo, e não da filiação. A poesia concreta é sem dúvida muito importante para o meu trabalho, para a minha percepção do que é e de como fazer poesia. O contato com os poemas e também com as traduções, os textos teóricos e críticos de Augusto e Haroldo de Campos e Décio Pignatari alterou irreversivelmente a minha forma de lidar com a matéria poética. Mas não sinto a obrigação de seguir ou dar continuidade àquilo que os concretos fizeram.

    Procuro sempre o meu caminho e sei que só poderei produzir uma obra significativa se encontrar o meu próprio jeito de fazer, de modo que ninguém mais possa dizer aquilo daquela forma.

    E isso leva em conta outras referências que não apenas o grupo Noigandres. Como já disse, prefiro lidar com tudo isso sob uma perspectiva sincrônica e dialógica.

    No “Cada” tem um poema chamado “Angu da influência”, que trata um pouco disso. É uma alusão ao livro “Angústia da influência”, em que o crítico Harold Bloom lança a teoria de que o autor mais jovem tem em relação ao mais velho uma relação edipiana, de opressão pela figura paterna. Toda a literatura seria, então, uma forma de se haver com essa relação opressiva e angustiante. Minha visão é diametralmente oposta à de Bloom. Não tenho tempo nem paciência para ficar sofrendo pelos autores que li ou deixei de ler. No meu poema enumero uma série de poetas célebres que não se leram. E não se leram simplesmente porque não se encontraram no espaço-tempo, porque viveram em épocas diferentes, separados por séculos. Mas que convivem ali, no poema. A poesia tem dessas coisas.

5. Já em “Cada”, você prioriza o ritmo. Qual o papel da música (e das outras artes também, já que as ilustrações do livro são suas) na sua obra literária?

    Talvez o sentido mais atuante no momento em que escrevo é a audição. O ato de ouvir uma simples palavra, uma frase ou uma pronúncia peculiar é capaz de desencadear todo um poema. Dificilmente escrevo a partir de uma idéia solta. Meu processo é muito material, preciso das palavras, dos sons, do ritmo, das imagens. Muitas vezes fico com uma idéia na cabeça, sem saber como passar aquilo para o papel, e só consigo resolver o problema quando encontro as palavras certas, o que pode demorar meses. É um erro achar que qualquer palavra serve para qualquer poema. O aspecto visual também é muito importante. Por atuar como designer gráfico, sempre penso no livro em seus aspectos materiais: papel, encadernação, formato, tipografia, diagramação. E a poesia, por ser uma arte extremamente materialista, se beneficia muito disso. Na verdade, creio que todos os sentidos têm uma atuação importante no momento da composição. Gosto da idéia de sinestesia, os sentidos contaminando uns aos outros.

6. Você edita, juntamente com Makely Ka, a Revista Autofagia. Poderia falar um pouco mais sobre este projeto e de suas pretensões ao lançar esta revista?

    Tivemos a idéia da revista em 2005, quando começamos a conhecer muita gente na Internet, nos blogues e nos lançamentos que fazíamos pelo país. Percebemos que havia ali uma intensa produção e circulação de arte e cultura de altíssima qualidade, feita por pessoas que muitas vezes não freqüentavam a mídia tradicional.  Pensamos em registrar esse momento em uma revista impressa, por se tratar de um veículo que, até certo ponto, transita entre a agilidade do jornal impresso e a perenidade do livro. O projeto prevê o lançamento de quatro números, sendo que o primeiro já foi editado e o segundo tem lançamento previsto para fevereiro. Até o final de 2008 já teremos todos os números publicados.

7. Esta entrevista é para uma revista virtual, queria saber a sua opinião a respeito da poesia e da arte na Internet. Você também possui um blogue, o “Sabor Graxa”. Sobre o que você escreve nesse veículo virtual?

    A internet é um meio, um suporte. E é um meio ágil, barato, que facilita muito a troca e o acesso à informação. Está tudo lá, a um clique de distância. Me lembro que até poucos anos atrás era difícil encontrar certos livros e discos. Hoje você faz uma pesquisa sobre qualquer assunto na Internet e isso é sem dúvida muito estimulante. Mas no caso específico da literatura, não percebo uma mudança significativa na forma de escrever resultante do meio virtual. Aliás, acho que a exploração dos recursos multimídia oferecidos pelas novas tecnologias ainda é bastante tímido na literatura. Basta uma comparação rápida com a música ou o cinema e você verá que os escritores ainda têm um longo caminho pela frente.

8: "Rebeca, desde que lera Nietzche, preferia mostarda a Ketchup." Quais foram os escritores que, após serem lidos por Bruno Brum, o fizeram preferir a poesia a outra forma literária?

    Oswald de Andrade, nos livros “Serafim Ponte Grande” e “Memórias Sentimentais de João Miramar”, Carlos Drummond de Andrade, em “Alguma Poesia”, João Cabral de Melo Neto, em “O Engenheiro” e “Psicologia da Composição”, Ferreira Gullar, em “A Luta Corporal”, Augusto de Campos, em “Viva Vaia”. Temos aí um bom começo.

9. O poeta Augusto de Campos, um dos maiores expoentes do Concretismo, disse, em uma entrevista, ter uma simpatia especial pelos poetas atuais mais inquietos, "aqueles que experimentam novos caminhos, dando continuidade à ‘revolução permanente’ das vanguardas, os que se aventuram por criações interdisciplinares e os que tentam responder, no livro ou fora dele, à provocação das novas tecnologias". Você diria que se encaixa neste perfil?

    Todos esses procedimentos listados pelo Augusto de Campos convergem para um princípio fundamental das vanguardas que é a dinâmica de realimentação da linguagem. Todos os movimentos de vanguarda tiveram a busca por novas formas de realização artística no centro de seus interesses. Por isso a expressão “revolução permanente”. E creio que essa busca por novos procedimentos, esse embate com o signo em sua materialidade, está presente no trabalho de bons poetas de todas as épocas. Caso contrário, estaríamos até hoje reproduzindo os poemas de Hesíodo e Homero. Retomando uma afirmação do Décio Pignatari, que disse que “vanguarda não se supera, superpõe-se”, creio que toda essa inquietação proposta e colocada em prática pelas vanguardas continua válida. Quando se fala na crise ou na impossibilidade da vanguarda nos dias de hoje, na verdade se fala na crise ou na impossibilidade de um outro elemento igualmente fundamental para os movimentos de vanguarda: a utopia. Não concebemos mais a história avançando linear e progressivamente em direção ao futuro, quando as contradições serão finalmente resolvidas. Hoje, ao contrário do aspecto coletivista e utópico das vanguardas, temos uma produção cada vez mais pulverizada e individualizada, de infinitas variantes. Daí muitos preferirem a expressão “pós-utópico” à expressão “pós-moderno”, uma vez que os procedimentos incitados pela modernidade, tais como as criações interdisciplinares, a fusão de linguagens, a montagem, a série, entre outros, têm nas novas tecnologias um catalisador impensável há um século. Hoje, a situação é bastante diferente. Temos tecnologia demais e pouco tempo para assimilá-la. Sabe-se lá tudo o que é possível fazer apenas com a tecnologia disponível hoje? E daqui a 10 anos? A relação é muito diferente. Pertenço a uma geração que desde sempre soube o que é televisão, vídeo-game, computador. Existe uma provocação dessas tecnologias, claro, mas acredito que o livro impresso, por exemplo, seja, para a minha e para as futuras gerações, um objeto tão estranho e provocador quanto o computador foi para a geração do Augusto.  

10. Pensando em Trapiches, o que você pegaria do mercado para armazenar com você?

    Um bom livro, talvez. Uma água de coco. Mas tenho aprendido com o tempo que é preciso se desapegar um pouco da tralha que carregamos. É preciso descartar certas coisas, deixá-las de fora. Precisamos de mais espaço para respirar.

 

* Brum, Bruno (2004) Mínima Idéia. Belo Horizonte: Sêlo Editoral.

* Brum, Bruno (2007) Cada. Belo Horizonte: Lira.

 
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